Al Anderson (Foto: Marek Jezierski / Contributed photo via Ctpost)

Fonte:  Igor Miranda, Revista Rolling Stone

A figura de Bob Marley costuma ser muito lembrada quando se fala de reggae e música jamaicana. O que muitos nem sempre se recordam é que havia uma banda por trás do cantor e guitarrista, possibilitando o sucesso conquistado: The Wailers, com a qual ele se apresentou desde 1963 até sua morte, em 1981, aos 36 anos.

Um dos músicos que fez parte dessa história foi Al Anderson. O guitarrista americano fez parte do grupo entre 1974 e 1975 e de 1978 a 1981. Gravou os álbuns Natty Dread (1974), Survival (1979), Uprising (1980), participando de canções como “No Woman, No Cry”, “So Much Trouble in the World”, “One Drop”, “Redemption Song”, “Could You Be Loved” e “Forever Loving Jah”.

Apesar das glórias artísticas, Anderson sofreu bastante, assim como toda a banda. Em entrevista à Guitar World, ele contou que seu primeiro ano com Marley e os Wailers foi recheado de complicações, visto que simplesmente não havia dinheiro. Em suas palavras, os músicos eram “roubados” pelos advogados e empresários — algo pouco discutido até os dias de hoje.

Discos de vinil

Curiosamente, a trajetória de Al não começou com tantas dificuldades. Tendo pai baixista e mãe pianista, ele estudou música em Berklee, uma das faculdades mais conceituadas do mundo. Aos 17 anos, já vivia da arte, tocando em bandas cover e ganhando cerca de US$ 500 por semana.

O convite para se juntar a Bob Marley partiu do produtor Chris Blackwell e envolver as sessões de gravação do álbum Natty Dread. O guitarrista não se deu tão bem com o cantor de início, pois não estava acostumado a tocar reggae.

    "Tive que começar tudo de novo; precisava tocar muito mais devagar e adicionar mais sentimento. Depois que consegui fazer isso, percebi que era aquilo que queriam e Bob curtiu. Uma grande ajuda foi ouvir ‘No Woman, No Cry’. Nela, eu criei o primeiro solo, que é mais tranquilo e tem mudanças de acordes interessantes.”

Anderson, então, seria integrado oficialmente ao The Wailers. Era preciso que ele se mudasse para a Jamaica. Então, foram feitas promessas — que acabaram não sendo cumpridas.

    “Eles me prometeram que se eu fosse para a Jamaica, me dariam um hotel e um carro, mas isso nunca aconteceu. Eu não tinha dinheiro, mas o problema era que nem Bob tinha dinheiro. Ele gastava tudo em gravações e viagens, suas despesas eram muito altas. Eu batia nas portas dos hotéis, mas não havia espaço para mim. Cheguei quase que sem dinheiro, com um violão e uma mala, e acabei dormindo fora, em uma cadeira de jardim, com minha guitarra, na praia. Foi difícil, os mosquitos acabaram comigo.”

Primeiro ano difícil

Os perrengues, de acordo com Al Anderson, duraram um ano. Vale lembrar que Bob Marley já era bastante conhecido à época, embora seu primeiro hit real tenha sido justamente “No Woman, No Cry”, primeira do The Wailers a chegar no top 10 da parada britânica — só que na versão ao vivo, do álbum Live!, disponibilizado apenas em 1975.

    “Não vi Bob nas primeiras semanas na Jamaica. E, honestamente, todo o primeiro ano foi um pesadelo. Não havia comida, nem dinheiro. Mesmo assim, eu fiquei. Não ensaiamos muito. Apenas saíamos, eu bebia suco, tomava mingau e comia peixe.”

A questão financeira não foi a única complicação. O guitarrista ficou doente antes mesmo dos shows terem início. Mas a situação com dinheiro era a mais difícil, já que o estouro comercial só viria mesmo com o mencionado álbum Natty Dread — o primeiro com o músico americano.

Bob Marley muito além da imagem

Ainda durante a entrevista, Al Anderson destacou que muitos ficam apenas com a imagem estereotipada de Bob Marley como um Rasta fumando um baseado. Para o guitarrista, o astro falecido em 1983 era muito mais do que isso — e sua banda também merecia muito mais reconhecimento.

“Bob foi muito mais do que isso. As pessoas ainda são fascinadas por Bob Marleyand the Wailers. Mas para mim, não é apenas Bob: é Peter Tosh (guitarrista a quem Anderson substituiu), é BunnyWailer (percussionista), são todos eles. Se as pessoas soubessem toda a verdade, a percepção mudaria. Mas Bob merece tudo. Ele sacrificou sua vida por seu país e sua filosofia.”

A injustiça se refletiu, também, na mencionada questão financeira. O guitarrista pontuou:

    “Infelizmente, eles ganharam muito dinheiro para gravadoras, empresários e advogados. Eles foram roubados, mas as pessoas não sabem disso.”

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